Ou melhor, o que eu tive de traduções publicadas em 2011. Entreguei a maioria dos títulos abaixo em 2010, alguns até em 2009:
O que eu efetivamente traduzi em 2011, e que em grande parte vai ser publicado em 2012, foi:
- três graphic novels (Wilson e Forget Sorrow, ambas para a Quadrinhos na Cia., e a adaptação para os quadrinhos de Crônicas Marcianas)
- sete coletâneas de quadrinhos pra Panini (Y: O Último Homem 6 e 7, que já saíram, mais três do Brian Wood, uma do Mike Carey e uma do Matt Fraction), mais extras para outras três (incluindo os longo extras de Sandman Edição Definitiva vol. 3)
- nove infantis (Olavo Holofote e Quero um Bicho de Estimação já saíram, o terceiro Na Casa do Leo também; falta o quarto do Leo, dois da Toon Books, The Composer is Dead, Man in the Moon e Azzy)
- cinco livros de ficção infanto-juvenil (Nathan Abercrombie: Zumbi por Acidente 1 e 2, Wereworld 1 e 2, Why We Broke Up)
- seis adaptações de Shakespeare (duas para quadrinhos, quatro para livros infantis)
- 12 histórias de Vampiro Americano e 11 de Casa dos Mistérios para a revista Vertigo
- um não-ficção (Supergods)
- um livro de contos (que foi o mais legal de todos, mas a editora ainda não quer falar)
Tinha planos megalomaníacos de fechar 100 títulos traduzidos publicados em 2011, mas não cheguei lá. Dois mil e doze já começa com uma graphic novel, uma autobiografia, um infantil e uma coletânea.
E abaixo, só o que eu comprei/ganhei no FIQ:
"Bom, comparando à antiguidade quando se tinha brutalidades e crueldades e tudo mais, e a gente ainda tem, o que é particularmente detestável no mundo moderno e diferente do passado é que conseguiram criar uma forma muito esperta de manipular nossa percepção, de persuadir, de nos fazer de trouxas, que acabou ficando imensa e bem desenvolvida. Milhões de pessoas ganham a vida nessa mega-malandragem, na venda de coisas e ideias - ficaram muito bons nisso. Isso é detestável, desprezível, e ficar alerta demanda todo seu tempo. Você está sempre sendo bombardeado pelas propostas de vendas - sempre. Isso, pra mim, é o mais odioso. E é uma dessas coisas tipo banalidade do mal, a maioria das pessoas que trabalha nisso nem têm ideia de que se envolveram numa coisa que pode ser prejudicial, maldosa."
Já aceitamos que, no fim das contas, todo político será revelado mentiroso, tarado ou imbecil, assim como já esperamos que a lindíssima supermodelo seja uma infeliz bulímica e neurótica. Já enxergamos além das ilusões que sustentaram nossas fantasias e sabemos por experiência amarga que nosso querido comediante será desmascarado, mais cedo ou mais tarde, como um alcoólatra pervertido ou depressivo suicida. Dizemos às nossas crianças que estão presas que nem ratos num mundo condenado, falido, assolado por criminosos, que os recursos naturais estão acabado, e não há nada mais a esperar fora as águas subirem e a extinção em massa, e aí fazemos olhar de reprovação quando elas respondem se vestindo de preto, se cortando, fazendo greve de fome, se entupindo de porcaria ou se matando.
Grant Morrison, Supergods.
Um pouco por obrigação, criei o hábito de ir ao correio todas as sextas-feiras para despachar os contratos de tradução. Na semana passada, enviei para três editoras diferentes. Isso merece comemoração (sozinho, na minha cabeça, porque tem deadlines me olhando de todos os lados) e agradecimentos, muitos agradecimentos, a todos envolvidos. Três anos depois, parece que virou uma carreira.
Queria anotar aqui sempre que sai uma nova tradução, mas não dá. A melhor referência continua sendo no link ali à direita: "traduções". Ou aqui.
Por coincidência, tem várias traduções minhas saindo nos últimos dias e nos próximos dias. São estas:

Daytripper, Fábio Moon e Gabriel Bá (Panini)
(no qual minha tradução foi revisadas pelos próprios autores)

Sandman: Os Caçadores de Sonhos, de Neil Gaiman e P. Craig Russell (Panini)

Hellblazer: Origens, vol. 1, de Jamie Delano (Panini)
(traduzi somente os extras)

Y: O Último Homem - Menina com Menina, de Brian K. Vaughan e Pia Guerra (Panini)

Wereworld, Curtis Jobling (Benvirá)

Quero um Bicho de Estimação, Lauren Child (Companhia das Letrinhas)

Na Casa do Leo: Bichos Arrepiantes, Philip Ardagh e Mike Gordon (Companhia das Letrinhas)
Entreguei dois infantis na semana passada, tenho um para entregar nesta, tem o novo Wereworld para entregar início de outubro, mais Y: O Último Homem, as duas séries na Vertigo todo mês e Supergods até o final do ano. Obrigado. Tchau.
Os quadrinhos conseguem representar estados de sonho geralmente melhor do que qualquer outra mídia, na minha opinião. Tem algo neles que parece ser bem afinado para representar esta atividade mental em particular. Talvez seja porque nós sonhamos "em quadrinhos" a maior parte do tempo - a ciência nos diz que o montante de imagens em movimento que vemos nos sonhos é relativamente menor se comparado ao número de imagens paradas que vislumbramos uma após a outra na mente, e que são colocadas numa sequência contínua pela imaginação. As narrativas que criamos sonhando exercitam os mesmos processos mentais que usamos para ler quadrinhos, então talvez não seja surpresa que ver sonhos desenhados em quadrinhos pareça tão normal, tão familiar.
Matt Seneca, aqui.
O ofício da tradução baseia-se em dois pressupostos. O primeiro é o que somos todos diferentes: falamos línguas diferentes e vemos o mundo de formas profundamente influenciadas pelas particularidades das línguas que falamos. O segundo é o que somos todos iguais: que temos como compartilhar sensações, compreensões, informação e assim por diante em suas formas amplas ou restritas. Sem estes dois pressupostos, a tradução não existiria. Assim como não existiria tudo aquilo que chamamos de vida em sociedade. Tradução é outro nome para a condição humana.
David Bellos, Is That a Fish in Your Ear?: Translation and the Meaning of Everything.
Havia jornais na garagem, onde as pilhas alcançavam o teto. Havia jornais no quarto. Havia jornais na sala de estar, onde seus passos eram ditados pelas trilhas feitas entre as pilhas tremulantes. Havia jornais na cozinha. Havia jornais em todo lugar, exceto no banheiro, e só porque, dizia o Sr. Blackbeard a quem questionava, a umidade lhes faria mal.
Bill Blackbeard, colecionador de tiras de quadrinhos, morreu em março.
Oi Olivia!
Bem vinda ao mundo! Ou parte dele. Deixe-me mostrar um pouco do que há para ver por aí.
A sua direita (e, pensando bem, em todos os lados) você tem o que você deve chamar imediatamente de GIBI. GI-BI. É muito mais fácil e sonoro que aquela palavra horrível que teu pai quer te ensinar - História em Quadrinhos. Eles vão competir eternamente contigo pela atenção do teu pai mas isso não é um problema, você provavelmente já vai ter lido uma centena antes de sequer aprender a ler e terá pego gosto pela coisa.
Demos sorte, a sua esquerda podemos ver o Érico. Teu pai. Lá nos tempos que ainda éramos somente os filhos dos nossos pais, e não pais dos nossos filhos, ele já era uma fonte inesgotável de cultura pop e apresentou o universo dos gibis (aham) para meia cidade. Sei que ele era meu fornecedor oficial. E até hoje é a pessoa que eu escuto para saber que fração do universo devo ler, ouvir ou ver. Ah, e ele tem uma máquina do tempo. É a única explicação para ele conseguir dar conta da quantidade de coisas que ele acompanha e ainda ter meia dúzia de empregos diferentes.
Chegamos ao seu quarto. Sim, há gibis aí também. Ignore-os. Repare nas cortinas, no bordado das almofadas, no ajuste milimétrico dos quadros na parede. O quarto é seu, mas praticamente define tua mãe. Você já deve ter notado como ela é cuidadosa com detalhes, talentosa a níveis extremos e trabalhadora como poucas pessoas que eu conheço. Falando nela, olhe ela ali, do seu lado, onde sempre vai estar. Além de todas qualidades, ainda é uma das pessoas mais divertidas e bonitas que existem. Ainda lembro da primeira vez que eu a vi. Sabíamos que teu pai estava namorando alguém e, creio que foi em uma das festas de formatura dele, me apontaram - "Aquela é a Marcela", ao que eu respondi que não podia ser, era bonita demais para o Érico. Você vê, não há nada de errado com teu pai, mas eu o conheci quando ele era magérrimo, desengonçado, usava brinco - BRINCO! - e exibia sua tatuagem por aí. Difícil de imaginar? Eu não consigo mais também. Aproveitando que estás com sua mãe, diga que só vais comer fruta se ela comer também. Mas fale isso com a cara mais sapeca que conseguires.
Finalizando o tour, olhe para fora, pela janela. Essa aí é Chapecó. Chapecó fica a cerca de 700km do centro do mundo: Pelotas. Mas não se assuste. Chapecó é uma cidade quase tão boa quanto Pelotas. Teus pais certamente se esforçaram muito para torná-la habitável e ser um lugar que podes chamar de lar com orgulho. Pelo que vi, conseguiram maravilhosamente.
Então esta é uma primeira visão do seu mundo. Por aqui, estamos todos na expectativa de te ver. Literalmente não paramos de olhar o Twitter atrás de novidades e tudo que se fala é sobre que horas vais aparecer. Estamos curiosos para ver quais das qualidades dos teus pais terás herdado, mas o consenso é que qualquer combinação é fantástica. Já estamos treinando a Emilia a pronunciar seu nome e ensiná-la a arrancar páginas de livros e gibis.
Novamente, bem vinda.
Ricardo, o pai da Emilia
P.S. Se você reconhecer o meu nome ao ler isso, é porque Chapecó não se tornou longe demais
P.P.S. Perdi o seu nascimento por que fiquei escrevendo este texto!!

Em dezembro, numa coletiva de imprensa, Obama falou alguma coisa sobre os Republicanos estarem percebendo que "com maior poder vem maior responsabilidade". Ao ouvir isso, você ficou lisonjeado ou ligou pro seu advogado?Só não gostei do fato de ele ter feito alterações. Devia ser "com grandes poderes", não "com maior poder". Pensei em escrever pra ele avisando do erro. Se vai citar o Homem-Aranha, que pelo menos acerte o adjetivo. Mas acho que ele anda ocupado.
No início dos anos 1970, um sociólogo de Berkeley chamado Claude Fischer começou a pesquisar os efeitos sociais de viver em centros urbanos populosos. Era um assunto que há muito interessava aos teóricos do urbanismo, o mais famoso deles sendo Louis Wirth no clássico ensaio de 1938 "O Urbanismo como Modo de Vida", o qual defendia que a vida nas metrópoles levava à desorganização social e à alienação, que os laços sociais e os confortos das pequenas comunidades partiam-se no tumulto da cidade grande. O argumento de Wirth não envelheceu bem - descobriu-se que vizinhanças de alta densidade populacional tinham laços sociais altamente complexos e prósperos, caso você soubesse onde procurar - e então Fischer foi determinar que padrões sociais eram realmente favorecidos pelo ambiente da cidade grande. Sua pesquisa levou a uma conclusão arrebatadora, publicada num influente artigo em 1975: a cidade grande favorece subculturas de uma forma muito mais eficiente que subúrbios ou cidadezinhas.
Estilos de vida ou interesses que vão contra o mainstream precisam de massa crítica para sobreviver; eles atrofiam em comunidades menores não só porque estas comunidade são mais repressivas, mas principalmente porque a chance de encontrar pessoas que pensem parecido são muito menores num manancial menor de indivíduos. Se um décimo de um porcento da população tem interesse passional por, digamos, coleções de besouros ou teatro improvisacional, numa cidade de tamanho médio isto corresponderá a uma dúzia de pessoas. Mas numa cidade grande podem ser milhares.
Do capítulo 6 de Where Good Ideas Come From: The Natural History of Innovation, do Steven Johnson.
Sendo morador de cidades médias, sempre tive atração por essa variedade da cidade grande - mesmo sendo caipira e medroso demais para morar numa delas. E nunca tinha encontrado uma explicação tão matematicamente simples do porquê.

Percebi agora que nunca comentei no blog o fato de eu estar escrevendo para outro blog. E não qualquer outro blog, mas o Blog da Companhia das Letras.
Sim, é meio que surreal. E fica melhor: eu estou lá desde o primeiro dia do blog, em maio.
Escrevo segunda-feira sim, segunda-feira não, mas já falhei algumas vezes. Agradecimentos à Juliana e à Diana pelo convite, pelas revisões e por sempre escolherem as melhores fotos para ilustrar os textos.
Segue o que já publiquei:
- Salão de Beleza: sobre o estúdio do Rafael Grampá e do Rafael Coutinho
- Super-herói: sobre gibis x "quadrinho-arte"
- Meu primeiro semestre: sobre as coisas legais que li no início de 2010
- Chris Ware dançando: sobre o Chris Ware
- iGibi: sobre ler gibi no iPad
- Identidades secretas: sobre fãs de quadrinhos
- O Silêncio da Splash Page, parte 1 e parte 2: sobre linguagem dos quadrinhos
- Peregrino Escoto vs. The World: sobre a tradução de Scott Pilgrim
- [sem título]: a que eu mais gostei, mas que menos gente gostou.
- Quase Lá: sobre a aceitação mainstream dos quadrinhos
- O futuro do livro: sobre minha mudança
- O artista travestido: sobre o Laerte
P. O que você pensa sobre envelhecer?
R. Bom, sou contra. [risos] Acho que não há nada o que recomendar. Você não fica mais sábio com o passar dos anos. Você começa a definhar, isso sim. Há quem tente passar um verniz, dizem que você, tipo, amadurece. Começa a entender a vida e a aceitar as coisas. Mas você daria tudo pra voltar aos 35. Já passei por aquilo de acordar no meio da noite e ficar pensando na minha morte, visualizá-la, e isso te dá um calafrio. É o que acontece com Anthony Hopkins no início do filme, e daí em diante ele não quis mais ouvir da mulher, mais realista “Ora, mas pode parar – você não tem mais idade pra isso.” Ela tem razão, mas ninguém quer ouvir isso.






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